Esperança e Medo: O que te move?

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Esperança e medo: o que te move? Marcia Beatriz Bertuol São quase 6 horas da manhã e eu, deitada em minha cama, escuto os ruídos de um carro passando na rua. Vai parar? Escuto atentamente e percebo o ruído se afastando. Não, não parou. Não era minha filha chegando em casa, retornando da festa. Viro de um lado para outro, sinto frio, sinto calor. Mais um carro. Será que desta vez é ela? Não… também passa. Quando, finalmente, um carro para em frente ao prédio, ouço a batida da porta do edifício e o som do elevador se movimentando, meu coração dispara. O barulho da chave na porta confirma a esperança: ufa! Chegou! É ela, sã e salva!

Quantas noites vivi esta experiência. O meu contato mais intenso com esperança e medo. Juntos, dois sentimentos entrelaçados. O medo de que algo acontecesse com ela. Tantas coisas podem acontecer neste nosso mundo! A esperança de que tudo desse certo: que a festa tenha sido divertida, que ela volte para casa em segurança e feliz.

Aprendi recentemente com Espinoza, que escreveu sobre esperança e medo. Ele os vê como dois sentimentos fundados na dúvida. Frente ao incerto, ao desconhecido, podemos sentir medo de não alcançar o que desejamos ou necessitamos. Mas também podemos sentir esperança de alcançar o desejado, de realizar o sonho, de atender a necessidade. Só que ambos, esperança e medo, miram o futuro, tentam antever o que vai acontecer. Como eu, aguardando minha filha voltar da festa.

A chegada dela trazia alívio. Permitia o descanso e o sono. Mas não chegava a ser uma alegria. Afinal, haveria outra festa logo adiante…

Em quantos momentos da vida nos encontramos assim? Olhando para o futuro, com todas as incertezas, querendo adivinhar o que irá acontecer. Ora inundados de esperança, colecionando os indicadores positivos, que nos dizem: vai dar certo! Ora imersos no medo, frágeis e vulneráveis, diante das inúmeras adversidades possíveis e da nossa total impotência frente às forças da natureza e de algumas ações humanas.

Medo, um elemento natural em nosso sistema. Uma emoção natural, que está a serviço da preservação da vida, nos orientando frente às ameaças. Ficamos alertas, nos aprontamos para fugir quando o medo surge. A questão é: o que nos ameaça? O que hoje nos provoca medo, nos deixa insones, ansiosos, inquietos?

Perder minha filha, ver um dos meus amores ameaçado por alguma dor ou sofrimento, isso me dava – e dá – medo. E são tantos os riscos, são tantas as possibilidades disso acontecer, que se não fosse a esperança de que não vai acontecer nada de ruim, não teria como dormir… A esperança, esse dom que veio junto na Caixa de Pandora, em que mesmo ela se baseia? O que faz com que a esperança exista dentro de nós?

Parece-me uma espécie de fé. Um acreditar na vida, que surge quando escolho olhar para os gestos de bondade, quando olho para tudo o que acontece de um jeito bom, para todas as vezes em que, sim, um carro parou em frente ao prédio e nele estava minha filha. Também é uma força, mais do que um sentimento ou emoção. A esperança está dentro de cada um de nós como parte do que somos. E, como força, nos move em meio ao caos e ao medo, nos levando a mirar para além do que parece provável.

Como se manifesta, muitas vezes, como consequência da solidariedade, penso na esperança como um elemento de nosso sistema de engajamento social. Parte de nossa fisiologia voltada para o estabelecimento de relações entre humanos. Tem a ver com ser percebido, reconhecido como alguém que tem valor e significado no grupo e pode pertencer. Te vejo e me vejo em ti, sinto teus sentimentos e compreendo o que dizes. Essa experiência de ver e escutar o outro como um legítimo outro na convivência, como escreve H. Maturana. Neste sentido, a esperança surge e se nutre no encontro com o outro.

Em nosso Congresso, vamos debater este tema. E pensar em como lidar com um paradoxo: vivemos tempos em que somos muito convidados a sentir medo do outro. As pessoas é que assustam, com as ameaças de violência de toda ordem. Neste temor, parece melhor isolar-se. Fechar as portas, janelas, colocar mais grades, não sair de casa. Mas, se assim for, perdemos a chance de viver a esperança. Em isolamento não temos contato. Sem contato, sem esperança. O que fazer? Como nos mover nestes tempos?

Nosso convite é que venhas participar do XXVI CONBRAT para que, juntos, criemos as ações que nos permitam a esperança de viver em um mundo em que o amor entre os humanos finalmente floresça.

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