Este trabalho é uma revisão da literatura em Análise Transacional Integrativa, basicamente dos artigos e livros publicados por Richard Erskine e colaboradores. Dentre os conceitos, destacamos os que se referem ao Estado de Ego Criança, discutindo aspectos do desenvolvimento infantil e do processo de formação de estruturas disfuncionais. A definição do que é psicoterapia integrativa é apresentada, assim como a teoria das motivações em Análise Transacional e uma descrição das necessidades relacionais. Estratégias psicoterapêuticas para o tratamento da Criança são comentadas no final.
A PERSPECTIVA INTEGRATIVA:
Richard Erskine e Rebecca Trautmann em seu artigo “Métodos de uma Psicoterapia Integrativa” publicado no Transactional Analysis Journal (vol. 26, n. 4, pgs. 316-328), afirmam que a Psicoterapia Integrativa refere-se primariamente ao processo de integrar a personalidade que inclui:
a) ajudar os clientes a tomarem consciência dos conteúdos fragmentados e fixados dos estados de ego, assimilando-os em um ego neopsíquico integrado; b) desenvolver um sentido de si mesmo (self) que reduza a necessidade de mecanismos de defesa e de um script de vida; c) voltar a envolver-se com o mundo e com os relacionamentos com contato pleno.
Integrativo também se refere à integração da teoria – abordagem afetiva, cognitiva, comportamental , fisiológica e sistêmica da psicoterapia.
A TEORIA SOBRE A MOTIVAÇÃO HUMANA:
A premissa básica é a de que a necessidade por relacionamento constitui uma experiência motivadora primária do comportamento humano. E o meio para atender a necessidade de relacionamento é o contato, tanto interno (sensações, percepções, sentimentos, pensamentos, reações fisiológicas) quanto externo (tudo o que acontece fora do corpo e que é percebido e causa impacto). Quando há contato interno e externo as experiências são continuamente integradas em um self (ou ego) coeso e integrado. Quando ocorrem interrupções do contato, as necessidades não são satisfeitas e um fechamento artificial – fisiológico e cognitivo – acontece, originando as decisões de script. Sobre a teoria da motivação na Análise Transacional, R. Erskine (1997) comenta que Eric Berne (1966) escreveu sobre fomes psicológicas as quais “impulsionam o indivíduo para a ação social” Ele classificou impulsos como as fomes por estímulos, estrutura, e relacionamento. Estas fomes ou impulsos do organismo humano operam não conscientemente. As fomes são as motivações que determinam as respostas fisiológicas, afetivas, cognitivas e comportamentais. (pg 10) A fome de estímulos é necessária para a sobrevivência. As necessidades de sobrevivência de oxigênio, água, comida – bem como as necessidades psicológicas e relacionais – todas iniciam com a consciência de um desconforto ou um déficit. A pessoa que se torna consciente de um processo biológico ou psicológico também precisa tomar consciência do meio ambiente onde pode encontrar os recursos para sobreviver. Para satisfazer o que está sendo necessitado, o organismo deve fazer contato não apenas com as sensações internas e necessidades como também com o meio ambiente externo. Fome de estímulos é satisfeita através da interação do sistema nervoso central e os órgãos dos sentidos. “Nosso sistema sensorial nos dá a orientação que torna o contato interno e externo possível” (Perls,1973). Fome de estrutura é o impulso para organizar experiência, para formar configurações perceptuais – visuais, auditivas, táteis e cinestésicas. O impulso para estruturar configurações perceptuais e a inevitabilidade da formação de figura-fundo cria e organiza padrões, significado, e predictibilidade em nossas vidas. Esta tendência inata para a estruturação da experiência, que permite um senso de continuidade, também provê a possibilidade de percepção da variabilidade e a criação de novas organizações e significados. Tanto continuidade quanto variabilidade na percepção são necessários para que a fome de estímulos e a fome de relacionamento sejam satisfeitas. Se existe uma interrupção na estruturação (formação de figura-fundo) de sensações e percepções, existirá também uma interrupção (quebra) em todo processamento dos estímulos internos e externos e/ou da satisfação da fome de relacionamento. Então, o impulso para organizar e generalizar padrões de experiência (fome de estrutura) regula a satisfação tanto da fome de estímulos quanto da de relacionamento ( Erskine, 1997, pg.13). Fome de relacionamento é o impulso por intimidade. A fome de reconhecimento, a fome de contato físico e fome de contato, citadas por Berne em seus livros, todas as três descrevem aspectos da motivação por uma conexão pessoa-a-pessoa. Relacionamentos são construídos sobre contato interpessoal que inclui estímulos de toque físico e um reconhecimento por outra pessoa dos atributos e valores do indivíduo. Relacionamentos provêm as experiências a partir das quais a configuração de um senso de self, dos outros , e da qualidade de vida, emergem. Satisfação da fome de relacionamento depende da consciência interna das necessidades relacionais (estímulos internos), do que o indivíduo acredita sobre si mesmo e os outros nos relacionamentos interpessoais (estrutura) e o comportamento da outra pessoa no relacionamento (estímulos externos). Fome de relacionamento é afetada e influenciada pelos impulsos por estímulos e estrutura. Quando a fome por relacionamento de um indivíduo é repetidamente não atendida por uma outra pessoa capaz de dar uma resposta empática, o indivíduo pode supergeneralizar e tornar rígidas as conclusões que ele tirou dessas experiências. As conclusões e decisões são uma tentativa para fazer sentido das rupturas acumulativas no relacionamento e as tornar (temporariamente) suportáveis. De uma perspectiva da teoria de personalidade da Análise Transacional, esta estrutura compensatória pode ser vista como a divisão do ego em vários estados de ego Criança ou Pai, tomando decisões de script, ou fantasiando e colecionando evidências seletivas que reforçam as crenças de script. As fomes por estímulos, estrutura e relacionamento (reconhecimento) são entrelaçadas, interativas e interdependentes. Essas três fomes operam como um sistema motivacional dinâmico. A satisfação ou a falta de satisfação de uma das fomes sistematicamente afeta as outras duas, seja satisfazendo ou potencializando o déficit em uma ou ambas as outras. Quando existe uma privação de estímulos ou de relacionamentos, estruturas compensatórias de estados do ego fragmentados, script de vida, e padrões fixados de defesa, emergem. ( in “The Therapeutic Relationship: Integrating Motivation and Personality Theories”, R. Erskine, 1997)
AS NECESSIDADES RELACIONAIS:
Entendendo a fome de relacionamento como central na motivação humana, conhecer as necessidades relacionais é essencial para a compreensão do desenvolvimento e dos relacionamentos humanos. As necessidades relacionais são as necessidades próprias do contato interpessoal. São os elementos essenciais que ampliam a qualidade de vida e o sentido de si mesmo no relacionamento. Elas são componentes de um desejo humano universal pelo relacionamento íntimo e estão presentes todos os dias de nossas vidas. A satisfação das necessidades relacionais requer a presença, com contato, de outra pessoa que é sensível e sintonizada com as necessidades relacionais e que fornece uma resposta recíproca a cada necessidade. Em um estudo realizado, 8 necessidades relacionais foram identificadas, embora seja possível a existência de várias outras. (ver em “Métodos de uma Psicoterapia Integrativa”, TAJ, out/1996). São elas:
- SEGURANÇA: A necessidade por segurança nos relacionamentos é a experiência visceral de ter proteção para nossas vulnerabilidades físicas e emocionais. Inclui a vivência de que a nossa variedade de sentimentos e necessidades é natural. E também a ausência de intrusão e perigo, tanto real quanto antecipado. Sintonia: envolve a consciência empática da necessidade que o outro tem de segurança no relacionamento, aliado a uma resposta recíproca a esta necessidade. Resposta Empática: provisão de segurança física e afetiva na qual a vulnerabilidade do indivíduo é honrada e preservada.
-VALIDAÇÃO, AFIRMAÇÃO E IMPORTÂNCIA DENTRO DE UM RELACIONAMENTO: É a necessidade de o outro validar a importância e a função dos nossos processos intrapsíquicos de afeto, fantasia e construção de significado. Nossas emoções são uma comunicação intrapsíquica e interpessoal significativa. Sintonia: reciprocidade afetiva com os sentimentos da pessoa. Resposta Empática: através da reciprocidade afetiva, validar o afeto da pessoa, trazendo-lhe a afirmação e a normalização de suas necessidades relacionais.
- ACEITAÇÃO POR OUTRA PESSOA ESTÁVEL, CONFIÁVEL E PROTETORA: A necessidade de olhar para cima e depender dos pais, dos mais velhos, de professores e mentores. É a busca de proteção e orientação, podendo manifestar-se como uma idealização do outro. Sintonia: o reconhecimento, da parte do terapeuta ou outro significativo, da importância da idealização como sendo um pedido inconsciente de proteção intrapsíquica. Resposta Empática: ter um interesse genuíno no bem estar do cliente (ou aluno, ou filho), mantendo uma atitude ética e moral na prática profissional e na própria vida.
- CONFIRMAÇÃO DA EXPERIÊNCIA PESSOAL: É o desejo de estar na presença de alguém que é semelhante, que compreende porque ele/ela teve uma experiência similar, e cuja experiência compartilhada é confirmadora. Sintonia: terapeuta aceita tudo que é dito pelo cliente, mesmo quando fantasia e realidade estão misturadas. Imagens ou símbolos da fantasia tem uma função intrapsiquica e interpessoal Resposta Empática: é provida pelo outro (ou terapeuta) valorizando a necessidade de confirmação, revelando experiências pessoais cuidadosamente selecionadas, estando pessoalmente presente e vital.
- AUTO-DEFINIÇÃO: Necessidade relacional de conhecer e expressar a própria singularidade e de receber reconhecimento e aceitação do outro. Auto-definição é a comunicação da identidade própria auto-escolhida, através da expressão de preferências, interesses e idéias sem humilhação ou rejeição. Sintonia: ocorre com o apoio consistente à expressão de identidade da pessoa (ou cliente). Resposta Empática: apoio à expressão da identidade e normalização da necessidade de auto-definição. Requer presença consistente, contato e respeito mesmo em face ao desacordo.
- TER UM IMPACTO SOBRE A OUTRA PESSOA: Impacto refere-se a ter uma influência que afeta o outro de alguma forma desejada. Atrair a atenção e interesse do outro, influenciando o que talvez seja de interesse da outra pessoa, e efetuando uma mudança de afeto ou comportamento no outro. Sintonia: o outro permite a si mesmo ser impactado. Resposta Empática: responder com compaixão quando a pessoa está triste, com afeto de segurança quando ela está assustada, levando a pessoa a sério quando está com raiva, ficando empolgado quando ela está alegre. Solicitar feedback e mudar se necessário.
- A NECESSIDADE DE TER O OUTRO A INICIAR: Iniciar refere-se ao ímpeto de fazer contato interpessoal com outra pessoa.É o estender-se para o outro de alguma forma que reconheça e valide a importância que esta pessoa tem no relacionamento. Sintonia: ter a disponibilidade para iniciar o contato interpessoal, diferenciando esta necessidade relacional de Salvação. Resposta Empática: iniciar o diálogo, iniciar o contato, mover-se em direção ao outro.
- EXPRESSAR AMOR: É a necessidade de dar amor que se traduz em expressar gratidão, afeto ou em fazer algo pela outra pessoa. Quando a expressão do amor é obstruída, a expressão do si-mesmo-no- relacionamento é frustrada. Sintonia: envolvimento consistente e confiável. Resposta Empática: reconhecer, validar e normalizar as necessidades relacionais e o afeto envolvido.
O SENSO DE SELF:
Uma compreensão clara da formação da personalidade humana e da sua psicodinâmica, requer um entendimento do que seja ego ou self, o Eu. O conceito de self vem sendo trabalhado pelos teóricos das relações objetais e da Psicologia do Self. Dentre os autores, Daniel Stern (1985) é o autor que apresenta os estágios normais de desenvolvimento do senso de self. Ele afirma que o senso de self se desenvolve na matriz do relacionamento, através das diferentes capacidades que emergem ao longo da infância. Os estágios são os seguintes:
0 a 2 meses: Self Emergente – equilibrar padrões fisiológicos (ciclo dormir-acordar / fome-saciedade). Processos de discriminação já ocorrem nos primeiros dias após o nascimento (diferenciar o cheiro do leite da mãe / som da voz da mãe e outras vozes conhecidas). O equilibrar das reações fisiológicas ocorre no relacionamento.
2 a 7 meses: Self Nuclear - os bebês mostram-se mais calmos, sono estabilizado, cólicas passaram. Está mais organizado. Senso de si mesmo que inclui a experiência de auto-direcionamento – “Eu faço meu pé chutar, eu posso fazer isto”. Senso de auto-coesão – “tenho fronteiras, há uma parte que sou eu e outra que não sou eu”. Senso de self de que eu sinto coisas, eu sinto algo. Senso de continuidade no tempo – mesmo que as coisas mudem, algo permanece no tempo.
8 meses a 15 meses: Self Intersubjetivo – a criança percebe que tem uma mente e os outros também têm uma mente. Senso de partilhar estados internos. A criança percebe que tem sua própria intenção e sua mãe tem intenções também. As vezes são bem diferentes, mas podem ser comunicadas. Uma pequena palavra como “banho” significa uma série de ações. Descobre que podem partilhar sentimentos; a criança cai, olha para a mãe e encontra uma expressão de dor em seu rosto. Então, ela descobre que sentimentos podem ser partilhados. O bebê depende do afeto compartilhado com a mãe para orientar-se e decidir sobre sua experiência. Mãe/pai têm um grande poder de influenciar seus bebês através do afeto que partilham. Afeto não compartilhado ou transformado em outro, deixa o bebê sem referência para compreender e ter um senso de self adequado sobre aquela experiência. Compartilhar atenção, sentimentos, motivações, tudo em um nível pré-verbal, é fundamental para a organização saudável do self. São respostas sociais que constroem o senso de pertencimento. A experiência intersubjetiva compartilhada também traz o senso de conhecer e ser conhecido. O compartilhar dessa fase estimula a motivação para desenvolver a linguagem – “quero poder partilhar mais e então quero aprender a falar para poder comunicar meus estados internos”.
16 meses a 3 anos: Self Verbal – o eu que conheço através da comunicação verbal. O desenvolvimento da linguagem é, de certa forma, uma “faca de dois gumes”. Ao mesmo tempo que aumenta a capacidade de comunicar, traz a experiência de isolamento, na medida em que as palavras não conseguem expressar plenamente a experiência interior. A linguagem é, simultaneamente, uma forma de estar mais próximo, uma forma de experienciar nossa independência e também uma experiência de isolamento. 3 anos: Self Narrativo – como as crianças constroem uma narrativa sobre seu próprio self. Como constroem suas próprias histórias. As histórias não são contadas de forma cronológica (“Aconteceu isto, e depois aconteceu isto...”) e sim através de uma ordenação pelo valor emocional. Sendo capaz de criar sua própria história, o que a criança faz é criar significado para sua própria experiência.
Helena Hargaden e Charlotte Sills ( TAJ, Vol 31, pgs. 55 a 69) fazem uma relação entre os conceitos de Stern (1985) sobre os estágios do desenvolvimento do self com a análise estrutural do estado de ego Criança. As autoras propõem que a C2 é o self total e que a organização interna do self é abarcada por C1, A1 e P1. “Nós ligamos a organização interna do self na C2 com o conhecimento sobre o self de Stern (1985). Isto é para sublinhar a natureza interativa, dinâmica e em permanente desenvolvimento do mundo relacional interno como simbolizado por P1, A1 e C1(Po/Co).”( p.55/56)C1: o Self Nuclear C1 contém Co e Po, sendo Co equivalente ao self emergente. Co é experienciado como estados afetivos-corporais que incluem o senso de existência através do contato com o meio ambiente (mãe) – Po A experiência da criança de uma interação com um outro auto-regulador torna-se uma parte integral do senso de um self coeso ok na criança, o qual existe contido em um tipo de “saco amniótico” como Ao, que está sendo criado na interação Co/Po
A1: o Self Intersubjetivo e Verbal
A1 representa as tentativas da criança de criar um sentido de self, dos outros, e do mundo, baseado nas experiências de C1 e nos padrões de relacionamento subseqüentes. É a base da personalidade e tem duas faces: A1+ e A1-. A1+ é o “eu estou ok se eu...” e consiste das adaptações bem sucedidas para as mensagens dos pais. A1- é a criança criando um sentido para os sentimentos que ele teve nos momentos em que suas necessidades não foram atendidas. Ele sente-se não-ok e experiencia injunções negativas. Quando as necessidades da criança são adequadamente atendidas e seu senso fundamental de oqueidade está intacto, estes dois lados vão sendo integrados e a criança se sente ok sobre si mesma e suas atividades.P1: a Representação Interna do Objeto P1 inclui P1+ e P1-. Quando a criança experimentou uma intensa falta de sintonia do meio ambiente, ela não consegue criar um sentido para o que acontece dentro dela. Por exemplo, quando a criança projeta ansiedade para fora, ela precisa de alguém no ambiente que se sintonize com ela e a ajude a compreender a sua experiência. Todos os sentimentos que não são adequadamente processados, tornam-se intoleráveis para a criança e, para lidar com eles, ela torna-os parte do self mas separa-se deles (colocando-os dentro do P1). P1 contém tanto aspectos parentais introjetados quanto partes negadas do self natural. ( in “Deconfusion of the Child Ego State: A Relacional Perspective, TAJ, vol. 31, p. 58-59)
OS ESTADOS DO EGO:
Na perspectiva integrativa, os conceitos de Eric Berne sobre o ego, apresentados no livro “Análise Transacional em Psicoterapia” são os que permitem uma compreensão elaborada sobre a psicodinâmica e nos levam a pensar estratégias para uma psicoterapia profunda, que não se ocupa apenas com as mudanças comportamentais. Erskine, em seus artigos “Estrutura do Ego, Função Intrapsíquica e Mecanismos de Defesa: um comentário sobre os conceitos teóricos originais de Eric Berne” (1988) e “Transações e Transferência: críticas a partir de uma perspectiva intrapsíquica e integrativa” (1991), apresenta as idéias de Berne sobre estados do ego e as comenta da forma que resumimos a seguir. Eric Berne (1961) expandiu o pensamento psicanalítico com sua elaboração e aplicação do conceito de Paul Federn (1953) sobre as subdivisões do ego. A contribuição de Berne à teoria dos estados de ego possibilitou uma mudança dramática na prática da psicoterapia e antedatou por vários anos a mais recente mudança de modelo psicanalítico para Psicologia do Self e uma perspectiva de desenvolvimento que focaliza fixações infantis pré-edipianas como a causa de disfunção psicológica. Berne (1961) descreveu um estado de ego “fenomenologicamente como um sistema coerente de sentimentos, relacionados a um sujeito específico e, operacionalmente, com um conjunto de padrões comportamentais coerentes ou, pragmaticamente, como um sistema de sentimentos que motiva um conjunto relacionado de padrões de comportamento (pg.17)”. Em todo livro “AT em Psicoterapia” usa uma descrição coloquial dos estados do ego (Pai, Adulto e Criança) para se referir às manifestações fenomenológicas dos órgãos psíquicos (exteropsique, neopsique e arqueopsique) cuja função é organizar estímulos internos e externos. Berne (1961) afirmou: “O estado de ego Adulto é caracterizado por um conjunto autônomo de sentimentos, atitudes e padrões de comportamento que são adaptados à realidade corrente”(p.76). Nesta descrição, o uso do termo “autônomo” refere-se ao estado neopsíquico do funcionamento do ego, sem controle intrapsiquico por um ego introjetado ou arcaico. É quando, no estado de ego Adulto, uma pessoa está em contato total com o que está ocorrendo tanto dentro quanto fora do seu organismo, de modo apropriado para aquela idade de desenvolvimento. Este estado de ego Adulto consiste em idade atual relacionada a comportamento motor, desenvolvimento emocional, cognitivo e moral; a habilidade de ser criativo e a capacidade para um entrosamento associativo completo em relacionamentos significativos. O estado neopsíquico do ego foi contrastado por Berne com um estado de ego arcaico, que consiste de fixações em estágios de desenvolvimento anteriores. Nas palavras de Berne(1961): “O estado de ego Criança é um conjunto de sentimentos, atitudes e padrões de comportamento, que são relíquias da própria infância do indivíduo”(p.77). Este estado de ego Criança percebe o mundo externo e necessidades e sensações internas como a pessoa percebia em um estágio anterior de desenvolvimento. A Criança, ou estados arcaicos do ego, são a personalidade total de uma pessoa como ela era em uma época de desenvolvimento anterior. Isto inclui as necessidades, desejos, anseios e sensações; os mecanismos de defesa e os processos do pensamento, percepções, sentimentos e comportamentos da fase onde ocorreu a fixação. O estado arcaico do ego é o resultado do impedimento de desenvolvimento que ocorreu quando necessidades críticas da infância por comunicação não foram satisfeitas. As defesas da criança contra o desconforto de necessidades não satisfeitas tornaram-se fixadas, egotizadas. A experiência não pode ser totalmente integrada no estado de ego Adulto até que estes mecanismos de defesa sejam dissolvidos. Berne também explorou as observações de Federn a respeito de haver, em muitos de seus clientes, uma presença psíquica constante das figuras parentais influenciando seu comportamento. Berne (1961) concluiu que os pais introjetados também se tornaram um estado do ego, definido por ele como “um conjunto de sentimentos, atitudes e padrões de comportamento que se assemelham aos da figura parental “(p.75). A partir das observações clínicas, Erskine concluiu que, mais do que “semelhantes”, as figuras parentais introjetadas no estado de ego Pai, são uma internalização histórica real da personalidade dos próprios pais do indivíduo ou outras figuras parentais significativas, como foram percebidas pela criança na época da introjeção. Introjeção é um mecanismo de defesa freqüentemente usado quando há falta de contato psicológico completo entre a criança e o adulto significativo. O conflito resultante é internalizado de maneira que possa ser mais facilmente administrado, aparentemente (Perls, 1978). Elementos introjetados podem permanecer como uma espécie de corpo estranho dentro da personalidade, geralmente não afetados por aprendizagem posterior ou desenvolvimento, mas continuando a influenciar comportamentos e percepções.
IMAGENS DO EGO AUTOGERADAS:
Além dos estados de ego arcaicos – Criança -, criados e congelados por reações defensivas, decisões e experiências iniciais, há um outro processo pelo qual os conteúdos do estado de ego Criança podem se fixar. A fixação pode aparecer mais tarde, na vida, similar a um estado de ego Pai introjetado, mas sua origem está na fantasia de uma criança. Como um processo normal de desenvolvimento, nos anos de jardim de infância e pré-escola, as crianças freqüentemente criam uma imagem ou um ser como uma maneira de prover controle, estrutura, nutrição, ou o que quer que tenha sido experienciado como faltando ou inadequado no início da vida. Algumas crianças criam uma criatura aterrorizante que as ameaça com conseqüências horrendas para delitos menores. Investir neste “pai –fantasia”, com todos seus aspectos assustadores e ruins, permite que elas mantenham mãe e pai como perfeitamente bons e amorosos. Outras crianças podem criar uma espécie de pai “fada madrinha”, que os ama e nutre, mesmo se seus pais verdadeiros são frios, ausentes ou abusivos. Esta imagem criada serve como um amortecedor entre as figuras parentais reais e os desejos, necessidades ou sentimentos da criança. Nas fases posteriores de desenvolvimento as crianças, em geral, abandonam estas imagens autogeradas. No entanto, em famílias onde a consciência das necessidades, sentimentos e memórias precisam ser reprimidas a fim de sobreviver, as imagens autogeradas tornam-se fixadas e não integradas através de novas aprendizagens. Quaisquer que sejam as características da imagem parental autogerada do estado do ego Criança, através dos anos passa a operar como uma influência intrapsíquica, similar ao estado de ego Pai, porém geralmente mais exigente e muito menos lógico do que os verdadeiros eram.
OS PROCESSOS DISFUNCIONAIS:
Quando entendemos que todo comportamento humano é motivado basicamente por três fomes – estímulos, estrutura e relacionamento -, e que o senso de self (quem eu sou), do outro e da qualidade da vida, emergem e são construídos dentro da matriz dos relacionamentos primários (mãe/pai e figuras significativas), então um ego integrado ou um ego fragmentado são o resultado do que ocorre no encontro entre a criança e seu meio ambiente. Uma necessidade física e/ou psicológica manifesta-se através de uma sensação interna de desconforto que leva o indivíduo a buscar no ambiente o atendimento da necessidade. Nas situações em que a necessidade manifesta encontra uma resposta sintônica externa, a experiência da criança é de satisfação e bem estar, seja físico, psicológico, ou ambos. A necessidade atendida vira “fundo”, e uma nova necessidade irá tornar-se “figura”. Como foi comentado nos itens anteriores, a própria relação vivenciada vai sendo internalizada, criando um senso positivo de oqueidade e auto-estima. Uma necessidade não satisfeita gera uma série de reações na criança. Observa-se, inicialmente, uma escalada, nas respostas da criança, ao não atendimento de suas necessidades. A sensação de desconforto físico e/ou psicológico aumenta, levando a uma manifestação intensa de dor. Caso o meio ambiente continue não respondendo de forma empática, a manifestação de dor pode transformar-se em raiva, que é, ainda, uma tentativa da criança de estabelecer contato. Quando as necessidades continuam não sendo atendidas, os mecanismos de defesa começam a ser utilizados, como estratégias para proteger a criança da consciência do desconforto interno e também da ausência de contato externo. Selma Fraiberg, no início dos anos 60, pesquisou o desenvolvimento dos mecanismos de defesa nos bebês e identificou três mecanismos primários: fugir, lutar, congelar. Estas reações podem ser observadas já nos primeiros meses de vida e são todos pré-verbais. Um quarto mecanismo de defesa surge por volta do oitavo mês de vida e é a transformação do afeto. Se uma reação emocional não provoca cuidados, os bebês aprendem a usar outras reações para provocar o contato. A busca e a preservação do contato em um relacionamento significativo são tão essenciais para a criança que a quebra do vínculo é vivida como uma experiência apavorante (catastrófica). As interrupções do contato – cortes no vínculo – aumentam o medo, levando ao uso dos mecanismos de defesa, que promovem uma divisão no ego, através do isolar e congelar aspectos do self e do introjetar partes do outro significativo. As sensações, desejos e necessidades da Criança natural (ego libidinal) ficam separados da parte que se adapta às pressões do mundo externo, criando uma “face” adaptada que responde às demandas do meio como a criança percebe que esperam dela (ego central). A parte original fica negada e escondida do outro e muitas vezes da própria pessoa, criando um self secreto. A “gestalt” aberta pelo não atendimento da necessidade da criança vai ser fechada por um processo secundário, tanto no nível fisiológico quanto no nível psicológico. A fome por estrutura motiva a elaboração de conclusões que criem um sentido para aquela experiência, e conclusões e decisões de script são feitas. Como a tendência natural do ser humano é integrar e ser inteiro, a pessoa busca de alguma maneira expressar sua realidade interna, sua naturalidade, impulsos e necessidades. Se, mais uma vez, a expressão da naturalidade encontrar um meio desfavorável, crítico, rejeitador, ou frio e ausente, uma nova divisão pode ocorrer, gerando uma auto-crítica às próprias necessidades, motivações e desejos (ego anti-libidinal). Este processo interno de crítica que antecipadamente crítica e impede a auto-expressão, pode ser um estado do ego Pai ou o Pai autogerado no estado do ego Criança. A auto-crítica tem a função de proteger a vulnerabilidade do self libidinal (Criança natural) inclusive da auto-consciência. Sob os efeitos do ego anti-libidinal, a pessoa torna-se mais e mais adaptada e competente para o mundo externo. Em seu artigo “Inquiry, Attunement, and Involvement in the Psychotherapy of Dissociation” (TAJ,vol. 23, n. 4, out/93) Erskine descreve o uso da defesa da dissociação em situações traumáticas. Ele afirma que “a dissociação é um fenômeno defensivo complexo que visa manter a estabilidade física e mental.” A defesa pela dissociação durante uma experiência traumática permite que a pessoa que a usa remova-se cognitivamente e/ou emocionalmente da experiência e possa adaptar-se fisicamente e comportamentalmente às exigências externas. Como estas defesas mantêm-se através do tempo, elas interrompem a habilidade de contato de um indivíduo tanto internamente com o self, quanto externamente com os outros. É devido a esta fixação de defesas interruptoras de contato que as experiências traumáticas mantêm-se dissociadas como estados separados do ego ao invés de integrar-se a um estado do ego neopsíquico. O ego neopsíquico em qualquer idade é um processo contínuo de contato e surgimento. Se a pessoa traumatizada não encontra uma resposta de sintonia às suas necessidades em uma relação protetora, provavelmente ela não conseguirá integrar a experiência traumática. As necessidades não satisfeitas durante o trauma não recebem respostas ou validação satisfatórias, o que piora o trauma. Isto inicia um processo de isolamento da experiência da consciência e, em situações mais extremas, pode levar ao isolamento de aspectos do self em relação à consciência. Estas necessidades, sentimentos e experiências relacionadas ao trauma situam-se dentro do ego como um estado separado de consciência, sem estabelecer contato e sem ser contatável – estado de ego arqueopsíquico.
A PSICOTERAPIA:
Uma abordagem integrativa intrapsiquica para a psicoterapia em análise transacional consiste em desconfundir os estados de ego arqueopsíquicos e relaxar as defesas arcaicas fixadas, descomissionando o estado de ego exteropsiquico para resolver conflitos internos entre os estados de ego arqueopsíquico e exteropsiquico, e facilitar a integração das experiências de vida no estado de ego neopsíquico. Esse é o processo de totalizar: tornar aspectos negativos, inconscientes, não resolvidos do ego e fazê-los parte de um self coerente. A premissa é de que é por causa da fixação continuada dos mecanismos de defesa que os estados de ego arcaicos ou exteropsíquicos permanecem como estados separados e não se tornam integrados na consciência neopsíquica. “A visão da Análise Transacional sobre motivação e sobre o equilíbrio entre as fomes de estímulos, estrutura e relacionamento permite-nos uma mudança no foco terapêutico. Com a minha compreensão que script de vida e estados do ego são tentativas compensatórias para lidar com a fome de relacionamento e a perda do contato interno, o foco terapêutico pode ser colocado sobre o próprio relacionamento”. (Erskine, “Theories and Methods of an Integrative Transactional Analysis”, p.15, 1997). A análise dos estados de ego e do script de vida tem o propósito de buscar compreender qual necessidade relacional não foi satisfeita, como o indivíduo lidou com isso, e como a satisfação das necessidades relacionais atuais pode ser alcançada. Estas tarefas terapêuticas são realizadas através dos seguintes métodos: - Questionamento; - Sintonia; - Envolvimento. Através de um questionamento sensível às experiências internas do cliente é possível conhecer e validar o significado do funcionamento psicológico do cliente, sintonizando com seu ritmo e suas necessidades, normalizando suas estratégias defensivas. O envolvimento pleno de respeito à integridade do outro provê uma presença terapêutica centrada no processo intrapsiquico do cliente, que o convida ao contato interno e externo.
Bibliografia de referência:
BERNE, Eric – “Análise Transacional em Psicoterapia”. São Paulo: Summus, 1985. 2 ed. ERSKINE, R. e MOURSUND, J.. “Integrative Psychotherapy in Action” California : Sage, 1988. ERSKINE, R.. “Theories and Methods of an Integrative Transactional Analysis” San Francisco: TA Press, 1997. ERSKINE, R.. “The Schizoid Process” in Transactional Analysis Journal, vol.31, pg. 4, jan/2001. HARGADEN, H. e SILLS, C.. “Deconfusion of the Child Ego State: a Relational Perspective”, in Transactional Analysis Journal, vol. 31, pg 55, Jan/2001. Curso de Formação em Psicoterapia Integrativa, realizado em Belo Horizonte, com Dr. R. Erskine, de 1993 a 2001. Anotações pessoais.